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A metafísica paradoxal dos outros

Hand-out of my presentation in Anarchai today:

A metafísica paradoxal dos outros
Hilan Bensusan

Metafísica e os outros: o mundo externo, a fundamentação de alguma coisa em outra, as relações de dependência e inter-dependência, a interação, a transcendência, a heteronomia.
Existir e co-existir: aquilo que existe tem lugar entre outros que existem.
Anna Tsing e a dupla tarefa: a) oferecer uma abordagem maximamente geral da realidade com as melhores habilidades disponíveis e b) deixar espaço para outros – e outros relatos – que são parte da realidade.
Totalidade e transcendência: satisfazer a tarefa a) apenas produz uma totalidade fechada (e consistente nela mesma), satisfazer b) apenas é recusar uma abordagem englobante em nome da transcendência dos outros (e dos outros relatos).
Diaphonía e paradoxo: A diaphonía exerce uma pressão desde fora sobre a espontaneidade (a soberania) de qualquer abordagem. A tarefa paradoxal: oferecer uma abordagem maximamente geral da realidade tal que genuínos outros (e genuínas outras abordagens da realidade) sejam possíveis.
A metafísica paradoxal de Cogburn: A tarefa da metafísica é oferecer uma abordagem maximamente geral da realidade tal que a metafísica seja impossível.
Transcendência, teoria e prática: Levinas condena a totalidade alcançada pela representação como sendo de um indigno egoísmo; a representação é interrompida pelo desejo metafísico pelo absolutamente outro. Tal desejo é externo à representação que promove a totalidade. Não é a representação que transcende. A totalidade tem que ser restringida, limitada, denunciada.
Correlacionismo: A totalidade é incapaz de transcendência, estamos presos ou em uma correlação entre nosso conhecimento e o mundo ou entre nosso pensamento e o mundo. Para Meillassoux, sair da era do correlato é ser capaz de uma abordagem maximamente geral que não esteja presa à correlação.
Duas metafísicas: a) O esforço por apresentar uma representação total do mundo que o deixe exposto sem qualquer delimitação desde fora ou transcendente (metafísika) e b) O esforço por apresentar uma representação do que está fora, do que é exterior e transcende (métafísica).
A metafísica paradoxal reformulada: A tarefa da metafísika é oferecer uma abordagem maximamente geral da realidade tal que a métafísica seja impossível.
Ontologia orientada à objetos (Harman): Oferecer uma totalidade que inclua a inesgotabilidade de cada objeto, uma representação total da impossibilidade de representar o que transcende (o objeto real constitutivo de cada objeto e em permanente retirada).
A totalidade e os outros – o problema do neutro: Levinas entende a transcendência do absolutamente outro desde a primeira pessoa, desde uma assimetria que ela mesma rejeita qualquer totalidade. Harman entende o inesgotável no outro em terceira pessoa, como inesgotável de qualquer objeto (neutro). A totalidade abriga a transcendência apenas ao preço da neutralidade.
Monadologias (Leibniz, Tarde, Whitehead, Latour): As monadologias são metafísicas da multiplicidade de unidades de ação (mais ou menos claramente individuados) interdependentes que atuam uns os outros (ou sobre o domínio dos outros). Nas monadologias sempre há outros.
Monadologia e co-existência: Numa metafísica monadológica, tudo o que existe é produto de uma interação entre agentes – não há ordem alguma sem uma sociedade que a balize e a mantenha.
Husserl pede ajuda à monadologia: Para introduzir intersubjetividade em sua abordagem da fenomenologia do ego na quinta Méditation Cartesienne, Husserl introduz uma monadologia em que as unidades de ação (de intencionalidade) são alter-egos, representados como outros eus e concebidos à imagem e semelhança do que há de transcendental no meu ego.
O outro como interrupção: Do ponto de vista de primeira pessoa – um ponto de vista que se torna possível pela fenomenologia – a transcendência é neutralizada pelo alter-ego de Husserl e pelo objeto real de Harman. Levinas rejeita essa neutralização: o outro não é um alter-ego, é (parte do) que eu não sou.
Isolamento: Uma abordagem de primeira pessoa, comum a Descartes, Husserl e Levinas, parte do isolamento do ego, um isolamento que precede a transcendência.
Três isolamentos:
i. Cartesiano: “qualquer indivíduo da res cogitans ou da res extensa não requer nenhum outro indivíduo de seu tipo para existir”(Whitehead, P&R, p. 144).
ii. Levinasiano: cada existente tem uma pessoalidade e carrega uma hipóstase de sua existência (até o Deus de Spinoza é pessoal no sentido de carregar o onus de sua existência).
iii. Garciano: cada coisa é uma coisa porque está isolada, mesmo que não seja nem uma unidade e nem tenha uma identidade – seu isolamento a separa de qualquer predicado ou relação.
Monadologia e isolamento: É a partir do isolamento do existente que pode haver transcendência; numa monadologia o agente depende dos demais para ser o que é (para agir como age). Não vale o isolamento cartesiano e nem mesmo o garciano – ainda que talvez possamos entender que vale o isolamento levinasiano.
A monadologia interrompida: Como fazer para que a transcendência do outro seja parte da realidade sem que o outro seja neutralizado? Como conciliar a interdependência dos agentes em uma metafísika monadológica e a transcendência dos outros?
Tipos de outro: Para Levinas, o absolutamente outro da transcendência reside nos outros humanos. A separação de uma pessoa é garantida pela satisfação de suas carências e dá a possibilidade de uma representação soberana do mundo (que é indigna). A satisfação das carências é fornecida pelos outros não-humanos, a representação não é interrompida senão pela diaphonía.
Modos de existência: Ao invés de tipos, modos. Aquilo que existe pode existir de muitos modos. A diferença entre tipos e modos faz a diferença entre a filosofia da abstração de Platão e a de Aristóteles e a diferença entre pluralismo ontológico e pluralismo existencial em Souriau.
Uma monadologia de fragmentos? Em Being Up For Grabs e em Diáspora da Agência, uma monadologia é proposta em que cada unidade de ação existe em três modos de existência: um fragmento de uma composição alheia, uma composição ela mesma e um compositor.
Interdependência vs. transcendência: em uma monadologia, há que haver totalidade e neutralização; além disso, a passividade do fragmento e da composição não é ainda transcendência tomada por uma decisão de um existente isolado. A monadologia entende os outros sob o registro da interdependência.
Três narrativas concomitantes dos outros: Para pensar a possibilidade da transcendência e da totalidade, do absolutamente outro e da monadologia, talvez os três modos de existência tenham que estar em três narrativas concomitantes. As três narrativas do outro tornam possível três ângulos em que o ser e o outro se conectam.
1. Monadologia de composições: os outros aparecem compondo a realidade em relações de interdependência onde não há isolamento.
2. Fenomenologia dos compositores: os outros aparecem representados a partir de um ego soberano em um exercício de espontaneidade (o ego soberano pode ser uma comunidade associada a uma linguagem pública de conceitos).
3. Hauntologia dos fragmentos: os outros interrompem a representação e a composição da realidade por uma incompletude irremediável dos fragmentos que os deixam assombrados pelos outros desde o vão mesmo entre cada existente e sua existência na qual está isolado.
Metafísica paradoxal? O outro constitui a mim e aos outros e, ao mesmo tempo, é externo a mim e me transcende.
Totalidade e über-realidade: Kit Fine (“Tense and Reality”) introduz o conceito de über-realidade, o produto da conjunção de todas as realidades perspectivadas – em termos de realidades do passado e do presente mas também em termos de realidades de primeira e de terceira pessoas. Cada uma das perspectivas não oferece uma totalidade e é consistente. A conjunção de todas elas é a totalidade inconsistente – a totalidade é uma aglomeração, um entulho, um amontoado.
Contraste com OOO: Não há termo neutro e nem sequer isolamento garciano em todas as narrativas. Porém a totalidade se torna estereoscópica: vista de mais de um modo.

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