Skip to main content

Arte e hospitalidade

Um texto para Raísa Curty que mandei para o Metagraphias:
Arte e hospitalidade: Um protocolo
.............................................Para Raísa Curty


1 Pierre Klossowski em Les lois de l'hospitalité anuncia a força da curiosidade: uma anfitriã não se entrega jamais à suspeita ou à inveja porque ela é curiosa. A curiosidade conduz a hospitalidade.
1.1 Uma curiosidade que é ela mesma ciberneticamente positiva: ela não é para que o anfitrião saiba mais, veja de mais longe ou com mais precisão – ela conduz o anfitrião para fora de si. Klossowski: quando o anfitrião cessa de ser o mestre de sua casa, ele satisfaz sua missão.
1.1.1 Não se trata de buscar um conhecimento que, como uma espiral, trará ao anfitrião uma melhor condição. A curiosidade não entra em um circuito que se fecha ou que se amplia. Ela é kamikase, ela é potencialmente auto-destrutiva.
1.2 Sem curiosidade as portas ficam fechadas, as escotilhas ao léu, os artefatos trancafiados em suas utilidades e todas as ações apenas buscam completar alguma coisa já começada. Sem curiosidade as portas ficam fechadas mesmo como toda a etiqueta do anfitrião, com todas as leis da hospitalidade.
1.3 Querer saber é da natureza do que existe – quem jamais saberá o que significa não saber nada, não querer saber nada, pergunta Georges Bataille. (Talvez só o risco esteja a altura da natureza, ela também não protege ninguém.)
1.3.1 A curiosidade é o suplemento da existência. Mas o suplemento não é uma proteção. Também a nossa natureza nos coloca em risco, tal como a natureza dos felinos caçadores, dos peixes atraídos por corais, dos pássaros suicidas, dizia Rainer Maria Rilke. Suplementar é poder colocar tudo a perder. Apenas se a natureza contrasta com a sobrevivência a curiosidade é natural.
1.3.2 Uma natureza que está em guerra consigo mesmo é uma natureza que olha para fora. Realidade, existência, tempo presente são nomes de cárceres. Evadimos da Sua Realidade, evadimos de sua limitação, evadimos o plano de ser completo. Abaixo a realidade.
1.3.3 A curiosidade é uma força para fora, que traz o que está de fora sem perguntar se cabe.
1.3.3.1 O cabimento é o avesso da curiosidade.
1.3.3.2 Fazer caber é procurar completar.
1.3.3.3 O mundo sem cabimento é o mundo onde pode haver curiosidade em todas as situações, a cada momento – mesmo quando a pele dos glúteos está arrebatada pela mandíbula do leão. E mesmo quando os sopros de vida param em uma paisagem de artifícios, a curiosidade zarpa.

2 Mesmo invisível, a arte tem um destino. Ela se destina a encontrar alguém, mesmo que não fale o seu nome. É o mesmo tipo de destino das portas, das entradas, das casas de pensão. Ela recebe. Ela é receptividade. Como um órgão da sensibilidade em construção. Receptividade é hospitalidade.
2.1 Uma exposição em uma galeria recebe o público. Ela tem sua etiqueta, eles tem sua etiqueta. Aparte disso, quem visita pode ter seu tempo ocupado e pode ter suas realidades demolidas. A hospitalidade é um encontro de infinitudes. Aparte disso, quem é visitado pode ter um público e pode ter sua medula interrompida. Arte é interrupção.
2.1.1 Arte é um exercício de curiosidade.
2.2 Arte é hospitalidade.
2.3 A sensibilidade ela mesma – afetar os outros ainda que de modo tardio, esquivo, oblíquo – é uma receptividade e uma hospitalidade.
2.3.1 A arte não completa e nem supre, ela adiciona o imprevisto. Suplemento.
2.3.1.1 A arte é feita de insuficiência. Ela não preenche espaços vazios e nem continua sequências. Ela desvia o olho. Faço uma exposição para desviar o olho. Aliás, nada disso. Faço uma exposição para receber. O suplemento é da ordem da sugestão, do pedido e da insinuação. Ela não se encaixa. Há uma soltura, uma falta de arché. Há uma intriga de outras vozes, um terreno baldio. Ela é sobre ir-se. Mas ir-se é largar-se de si. Dar a largada. A curiosidade é o antídoto da suspeita e do ciúme. Ela não tem limite. Largar-se de si não tem limite.
2.3.2 A hospitalidade torna possível o nômade.
2.3.2.1 A arte é o nômade.
2.3.2.2 O utensílio quando ocorre de ser apenas utensílio – raras vezes – é o sedentário.
2.3.2.2.1 O sedentário no seu extremo nem precisa receber ninguém. Precisa apenas fazer com os que passam fiquem em seu quarto de hotel.
2.3.2.2.1.1 Um quarto de hotel pode ser uma galeria.

3. A arte é ela mesma o nome de um hotel. Ela abriga os descabidos – as pinturas que não prestam para oratórios e nem para laboratórios, as esculturas que não são cadeiras, as performances que não são liturgias, os textos que não são teses, as instalações que não são dispositivos. E abrigam os desvios das pinturas de oratório e laboratório, os desvios das esculturas que são cadeiras, os desvios das performances que são liturgias, os desvios dos textos que são teses e os desvios das instalações que são dispositivos. De toda parte pode vir a artista. De qualquer santo.
3.1 De qualquer santo pode vir o desvio. As artistas desviam de sua vida funcional. De sua órbita. Eles evadem, porque recebem.
3.2 Abrigar descabidos é olhar de soslaio. Olhar atravessado.

4 A hospitalidade é da natureza do pedido e do perdão – não há nada de compulsório em receber alguém, em atender a um pedido ou em perdoar – Klossowski diz: ela é acidental, mas é essencial para quem é nômade, estrangeiro (ou necessitado, ou arrependido).
4.1 A hospitalidade não é sobre reconhecimento, é sobre abrigo.
4.1.1 O pedido de hospitalidade não precisa dizer seu nome, ele se formula como um suplemento.
4.1.1.1 A arte não precisa dizer seu nome, ela se formula como um lado de fora.
4.1.1.1.1 A arte precisa de destinatários, mesmo sem ter o nome ou o endereço do remetente. Ela precisa de pouco para poder pedir muito.
4.2 O excesso é a delícia diária de tudo; Bataille mostra que ele é a parte maldita.
4.2.1 O suplemento é um excesso.
4.3 A hospitalidade vem de uma desigualdade de vulnerabilidades. Arte vem de outra. Ou da mesma.
4.3.1 Mas quando se vê o gesto, hôte = hôte; como em La Soupe de Picasso: quem oferece, quem recebe, quem aconchega, quem chega.
4.3.1.1 É claro que receber o perdão é um árduo. E é claro que a hospitalidade é como um bofetão que pode merecer revidar. Arte é o que dá vontade de fazer arte. (Uma bactéria enxertada de poemas – como aquela do Xenotext de Christian Bök – produz mais poemas.) Trata-se de fazer a roda girar, numa mesma direção.
4.3.2 A arte não obriga a nada. Ela é da ordem dos serviçais.
4.3.2.1 A arte é o nome do que não é compulsório.
4.3.2.1.1 Não é compulsório que a arte tenha o nome de arte.
4.3.2.1.1.1 O nome da arte é compulsório quando vira capital cultural de um colonizador, de um hegenonizador, de um impositor, de um impostor, de um cobrador de impostos…
4.3.2.1.1.1.1 A arte sem nome, a hospitalidade sem nome são, como o sexo sem nome, muito mais próximos daquilo que são.
4.3.2.1.1.1.1.1 O nome de alguma coisa – e não os pronomes, os advérbios e as interjeições - raptam alguma coisa da coisa. O nome não é um flatus vocis, é um tiro na garganta das coisas. E a arte, que carrega um nome pesado porque é capital cultural e é capital, dá estes tiros na garganta da arte. A arte que não diz seu nome se dissolve no meio dos oceanos de suplementos de que são feitas a vida e o correr do tempo – que talvez sejam a mesma coisa, pelo menos enquanto não se dá a eles seu nome.
4.3.2.1.2 A arte tem outros nomes: talento, coragem, loucura, vidência, insistência, inapropriado, surpresa, ensaio para outro mundo.
4.3.2.1.2.1 Poderia se chamar bocó; Manoel de Barros: “Bocó é
sempre alguém acrescentado de criança. Bocó é uma exceção de árvore. Bocó é um que gosta de conversar bobagens profundas com as águas. Bocó é aquele que fala sempre com sotaque das suas origens. É sempre alguém obscuro de mosca. É alguém que constrói sua casa com pouco cisco. É um que descobriu que as tardes fazem parte de haver beleza nos pássaros.”
4.3.2.1.2.1.1 O bocó e a hospitalidade tem um mesmo lado.
4.3.2.1.2.1.1.1 A arte da galerias por vezes se parece à loucura confinada – o confinamento retira os extravagantes do convívio de seus conterrâneos e os deixa fechados em si mesmos sem delírio, sem subversão, sem invenção, sem vidência, sem bocós. Em um território sem bocós regem sempre os mesmos princípios e os mesmos príncipes.
4.3.2.1.2.1.1.2 A política do bocó é a política da minoria, sua questão é demográfica.
4.3.2,1.2.1.1.2.1 O hospício e a galeria são para poucos – não podem ser para todos. Já o inapropriado, ele pode aparecer por toda parte.
4.3.2.1.2.1.1.2.1.1 A arte pode ser elitista apenas quando diz seu nome.
4.4 As coisas para serem percebidas apresentam pedidos. Como os pedidos não precisam ser satisfeitos, perceber é responder e inventar e recriar. Mas a percepção não é compulsória.
4.4.1 Perceber demora tanto quanto receber. Georgia O'Keefe dizia que ninguém vê as flores, elas são pequenas e demandam tempo, ninguém tem este tempo, é o tempo que demanda um amigo. Olhar uma flor, parece, é um acidente. (Ainda que a flor precise ser olhada.)
4.4.1.1 Com a passagem dos dias em sua estadia na casa de Basília em Pucamayo, perto de Masha, Raísa Curty já está embrenhada entre as pessoas o suficiente para que algumas possam se relacionar com as roupas de letras nas ovelhas. Em Puca Mayu, como em qualquer parte, há excessos. E há gente excessiva, excessiva de toda sorte de excesso. Mas nenhum excesso é igual a nenhum outro. E um suplemento é como um outro dia, feito de alvorada nova já que os dias passados não se guardam a não ser em um dia que passa (e se guardam para um dia que ainda não passou).

5 A arte se intensifica quando se torna imperceptível.
5.1 Deleuze e Guattari escrevem que o imperceptível é o fim imanente do devir, sua fórmula cósmica. O imperceptível: não-figurativo, feito de invisibilidades, composto de pequenos deslocamentos.
5.2 A capacidade de confabular ou conspirar da arte se desmobiliza no seu nome. Ela é emoldurada pelo seu nome. Vestir ovelhas em uma montanha é uma desfiguração que poderia ficar sem nome. Sem nome, quem veste as ovelhas ou dorme em uma cama na beira do mar é insano ou inautêntico ou descabido. O nome da arte dá cabimento. Ela torna o gesto tolerável. Mas é preciso não abusar do pharmakon, aquilo que permite sua persistência, que o torna digerível, em doses maiores retira do gesto toda intrepidez. O nome da arte pode ser uma proteção, mas demasiada proteção pode ser a segurança – das galerias estabelecidas que dizem os seus nomes, dos museus, das mostras – que tira as garras do monstro. É melhor que a arte fique menos anunciada, menos emoldurada, menos exibida.
5.3 O imperceptível é o horizonte da absorção.
5.3.1 A performance se contrapõe ao teatro apenas no limite – e o limite não é que o sangue não é ketchup, mas que o palco é invisível. A teatricalidade, que Michael Fried opõe à absorção, é a arte que parece com a oração da igreja. O imperceptível é a reza no meio da rua.
5.4 A hospitalidade é acidental, não é ela que é conjurada com um nome. Já a estrangeira é aquela que vem sem sobrenome.




Comments

Popular posts from this blog

Giving Birth

This is a month of giving birth: 1. On the first day of the month (my birthday) I sent out my book BUG (Being Up for Grabs) to publisher. A birth-giving moment. 2. On the forth, we started the Journal, called Journal of Questions. It is a Jabèsian and Jarryian endeavor that intends to reflect in many languages about the gaps between thought and translation. It will be available soon. 3. On the 10th, day before yesterday, offspring Devrim A. B. was born. Her name means revolution in Turkish and is a roughly common name. She's very attentive and concentrated - especially on her own fingers that she learned to molest in her youth during her womb months. She was gestated together with BUG. Hope the world enjoys.

My responses to (some) talks in the Book Symposium

Indexicalism is out: l https://edinburghuniversitypress.com/book-indexicalism.html   The book symposium took place two weeks ago with talks by Sofya Gevorkyan/Carlos Segovia, Paul Livingston, Gerson Brea, Steven Shaviro, Chris RayAlexander, Janina Moninska, Germán Prosperi, Gabriela Lafetá, Andrea Vidal, Elzahrã Osman, Graham Harman, Charles Johns, Jon Cogburn, Otavio Maciel, Aha Else, JP Caron, Michel Weber and John Bova. My very preliminary response to some of their talks about the book follows. (Texts will appear in a special issue of Cosmos & History soon). RESPONSES : ON SAYING PARADOXICAL THINGS Hilan Bensusan First of all, I want to thank everyone for their contributions. You all created a network of discussions that made the book worth publishing. Thanks. Response to Shaviro: To engage in a general account of how things are is to risk paradox. Totality, with its different figures including the impersonal one that enables a symmetrical view from nowhere

Hunky, Gunky and Junky - all Funky Metaphysics

Been reading Bohn's recent papers on the possibility of junky worlds (and therefore of hunky worlds as hunky worlds are those that are gunky and junky - quite funky, as I said in the other post). He cites Whitehead (process philosophy tends to go hunky) but also Leibniz in his company - he wouldn't take up gunk as he believed in monads but would accept junky worlds (where everything that exists is a part of something). Bohn quotes Leibniz in On Nature Itself «For, although there are atoms of substance, namely monads, which lack parts, there are no atoms of bulk, that is, atoms of the least possible extension, nor are there any ultimate elements, since a continuum cannot be composed out of points. In just the same way, there is nothing greatest in bulk nor infinite in extension, even if there is always something bigger than anything else, though there is a being greatest in the intensity of its perfection, that is, a being infinite in power.» And New Essays: ... for there is ne