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On the panpolitics of the virus

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“zwischen Strom und Gestein”
Os humanos e a pan-política dos vírus
Hilan Bensusan



Was not Hegel fully aware
that the way spirit arises out of the organic natural process is
through a mechanical repetition which disturbs the free organic deployment? [...]
There is no spirit without a machine,
the appearance of spirit is a machine which colonizes the organism,
the victory of spirit over mere life
appears as a “regression” of life to a mechanism.
Slavoj Zizek (Less Than Nothing, 483-4)

It’s a man’s world
But finished
They themselves sold it to the machines
Adrienne Rich

The clearest way into the Universe is through a forest wilderness.
John Muir


No princípio não era o vírus. Nem era Deus. Dizem que estava tudo escuro, mas tudo só fica escuro quando as luzes se apagam. E depois? Depois sim, nada fica o mesmo depois de infectado. Nenhuma cura é uma volta.

Vírus: porção de programa que se instala e se entranha, se executa enquanto se espalha. Agentes de perturbação em supostos indivíduos: animais, humanos, máquinas. Os vírus de máquina são comandos piratas que se imiscuem no processo de individuação de um dispositivo – serve para calcular os lucros da empresa mas está com um vírus, serve para me colocar em contato com o a rede mundial mas está infectado. A origem dos vírus – de animais, de humanos ou de máquinas – parece irrelevante diante de sua epidemiologia. Sua história, e se eles foram criados por humanos intencionados, como o Trixie, no filme The Crazies (de George Romero em 1973 e de Breck Eisner em 2010) ou o vírus de The Scarred Man (de Gregory Benford1), importa menos do que sua geografia; vale para os vírus, como para animais, humanos e máquinas, a lei da ecologia enunciada por Garrett Hardin: é impossível fazer uma coisa só. E epidemiologia, como a ecologia, é estereoscópica e os efeitos cosmopolíticos de uma infecção eludem os campos da intenção.

Os vírus diante dos suportes materiais que os executam são, portanto, comandos. Giorgio Agamben, invocando um romance de Alexander Hornet-Holenia, ressalta a importância de um comando mesmo quando quem se pretendia que obedecesse não o faça.2 Comandos podem se manter em suspenso até que sejam executados; um comando é como um predador que espera e espreita a sua presa e que fica suspenso até que seja seguido. Esta suspensão é a procura de sua presa. Não há exercício do poder – e nem sequer qualquer cumprimento ou prosseguimento – se não há um comando. Os vírus são pedaços de comado tanto sobre os processos naturais – CCoV, Ebola, Mers-Cov, SARS-cov2 entre tantos – quanto sobre os procedimentos artificiais – Trojan Horse, Elk Cloner, Win32.Cabanas entre tantos. Mais do que isto, eles expressam talvez o próprio comando – são átomos de comando, ordens monocelulares. São como mônadas, pedaços de código, mas precisamente são as unidades de ação que perturbam toda harmonia pré-estabelecida que se possa encontrar a posteriori.3 E como as mônadas, os comandos virais infectam todas as partes do que há. Seria possível imaginar legiões de ordens nem completamente mortas e nem plenamente vivas infectando um universo amorfo ou repleto apenas de matéria prima à busca de um autor. Os vírus são também como demiurgos – e são demiurgas platônicas as mônadas – o comando que chega formando e informando a matéria inerte. Seria possível imaginar assim, mas a infecção é recursiva – uma infecção se dá sobre outro corpo infectado. Não se trata da uma pura subserviência em que falta o comando que o completa, mas de uma infecção que é suplementada por outra infecção que faz com que a infecção anterior pareça não mais do que matéria inerte.4 A matéria pura é uma categoria da nostalgia recursiva – é uma incompletude imaginada a posteriori. Os virus e suas infecções não completam nada, não satisfazem nenhuma demanda anterior, não preenchem nenhuma ausência. Ao contrário, eles são partículas de excesso soltas – e não tem cabimento. Excesso, é claro, destrói e mata assim como reinventa e muda as regras dos jogos.

Todo comando é viral. A governança e a epidemiologia são vasos comunicantes. Ainda mais cosmopolítico, o vírus assola o orgânico e o maquínico. Sim, talvez a diferença entre processos e procedimentos seja uma diferença viral – de intensidade viral, de carga viral, de engenharia viral. E uma diferença virulenta. Talvez não fosse coisa alguma se não tivéssemos inventado uma pátria humana que pretende ser independente guardada por máquinas antropológicas – o guarda cada vez mais terceirizado, recebendo ordens por meios cada vez mais incompreensíveis. Nunca houve, é certo, a tal pátria humana. Foram poucos com a senha da filha de Elysium - e só iam à patria humana em seus dias de folga, quando não tinham que estar com rédeas curtas na mão. No meio do redemoinho das mônadas virais que se expressam sobre outras mônadas também elas virais mas já viradas em mecanismo ou organismo, qualquer distinção entre o espiritual ou o maquínico de um lado e o orgânico ou o mundano do outro é elusiva. O vírus, e seu corpo emprestado – toda matéria é emprestada – que é seu hardware, seu hospedeiro, seu anfitrião, não distinguem máquina de animal como não imagina que há alguma terra de ninguém para além dos órgãos e functores infectados.

Porém os humanos, predadores e também virais, guardam o legado do cuidado. Se encontrassem um pedaço de terra fértil entre o biológico e o maquínico, entre os animais e os deuses, entre Geist e Trieb, entre Strom e Gestein… “Pensem em como as mãos pousam sem pressão, embora o vigor permaneça nos punhos”5, escreve Rainer Maria Rilke na segunda elegia de Duino. Mas não é por acaso que ele descreve assim o impasse humano; a situação das Elegias de Rilke preside a militância cosmopolítica humana na qual estamos sendo atirados desde que entendemos o conhecimento como o destino comum.

Preside porque Rilke continua:

Mestres de si mesmos, eles sabiam: aqui estamos,
em nosso palpável domínio; mais poderosamente
os deuses podem nos tocar. Isso é assunto dos deuses.
Ah, encontrássemos também nós
uma estreita faixa de terra fértil, puramente
humana, entre a torrente e a rocha!
Pois nosso coração nos ultrapassa ainda como outrora
e é impossível saciá-lo em figuras apaziguantes,
ou em corpos divinos que, imensos, o moderam.6

Esta faixa de terra puramente humana, estreita porque difícil de ser encontrada, está entre o domínio dos anjos – que se movem no espaço espiritual como os algoritimos – e o domínio dos animais. Os anjos são soberanos à busca de seguidores; desprovidos de matéria eles procuram ser os predadores dela. Os animais são talvez bestas que seguem como um cabeçudo aquilo que há para seguir. Jacques Derrida estabeleceu que toda política – que por sua vez é um departamento da licologia, do estudo dos lobos – é um adágio acerca de bestas e soberanos.7 Mas insiste que os soberanos precisam de bestas ao ponto de se transformarem em bestas, ao ponto de serem substituídos por elas. A atividade política é a interação cósmica entre bestas e soberanos, entre os comandos dos processos e os comandos dos procedimentos; a atividade epidemiológica – viral, licológica – é a interação cósmica entre um comando e uma terra incognita. Paul Valéry diz que “não podemos fazer política sem se pronunciar sobre questões que ninguém sensato pode dizer que conhece”.8 A estreita faixa de terra recebe o fogo cruzado dos desconhecidos; os anjos soberanos que não conhecemos e os animais pestilentos com os quais não compartilhamos nem poemas nem teoremas.

O fogo cruzado: os vírus maquínicos de um lado e de outro os vírus orgânicos – os espíritos e os espíritos animais, os algoritmos e as pulsões. A estreita faixa de terra está entre os devires dos animais e os devires das máquinas é por onde os humanos transitam; e é uma terra virulenta. A estreita faixa puramente humana não existe – é nela que habitamos. Por ela transitam comandos soltos por todos os lados à procura de um departamento que não precisa ser próprio, mas que seja suficiente para eles se expressarem. Vírus a língua, vírus a Wille zu Macht, vírus a extração do viço das coisas. O inorgânico que entretêm o espírito humano – que o possui, que o anima – é uma arquitetura viral. Um pedaço de comando sobre outro, sobre outro e ainda outro. Algo como o pandemonium de Daniel Dennett: camadas sobre camadas em uma tectônica de regras, inibições, inclinações e argumentos. A soberania é um nome para esta terra sem fronteiras – sem barreiras – e é o nome do que se achata, do que se entorta, do que se esfacela. Há uma faixa de terra estreita, não uma terra sem males e nem uma terra sem vírus – e nem uma terra arrasada; mas uma terra aberta ao que a sensatez não conhece porque a sensatez não comercia nem com o suplemento e nem com excesso. Rilke sabe que há a soberania, um barco à deriva, assolado por apelos e por compulsões.

E veio o capital, viral, artificial, desterritorializado; suplemento e promessa reincidente. Nick Land:

Queremos capitalismo? eles costumavam perguntar. A ingenuidade desta questão tornou-a insustentável. Não parece mais plausível supor que a relação entre capital e desejo seja externa ou apoiada por contradições imanentes, mesmo que alguns ascetas cómicos continuem afirmando que o envolvimento libidinal com a mercadoria pode ser transcendido por uma razão crítica.9

O desejo – como a razão crítica – está entre Strom e Gestein. Sempre por um fio, e infectado, convulsionado. O capital infecta o desejo e contamina a capacidade de decisão; já não sabemos o que desejar sem ele, nem como pensar sem ele – ele é um suplemento e acelerar seu curso só pode ser suplementá-lo ainda mais. Nós? Os nativos da terra estreita? Aqueles que defendem um certo caldo viral que não para de estar em ebulição, em elaboração, macerado pelas forças desconhecidas do espírito – as forças maquínicas do capital – e pelas forças desconhecidas do orgânico. A faixa de terra, corpo sem órgãos, corpo sem espíritos – um corpo sem próteses, um corpo sem bestas. A terra humana: no man's land.

O coronavírus pandêmico (en)contra o capital. O acontecimento pan-político só pode ocorrer na estreita faixa de terra. Ela pode parecer um planeta todo em antropoceno. Pode parecer o universo inteiro iluminado pela lanterna extravagante de Geist. Mas é uma estreita faixa de terra. E nela que as partículas de comando, deontons de tipos diferentes, constroem alianças. (Pode parecer que um vírus acoplando-se a uma célula não a comanda, apenas se imiscui nela – mas parece assim apenas se entendemos que o material genético do vírus e a membrana da célula são matéria amorfa, talvez remotamente controlada; também o aplicativo apenas se imiscui no hardware e também o comandante fricciona o tímpano de seus comandados.) O coronavírus en(contra) o capital pandêmico – em três momentos:

Primeiro momento: na feira de animais selvagens criados para o mercado das carnes exóticas em Wuhan, alguns pangolins que sairam do criadouro onde tratava-se de fazê-los engordar sem viver e foram parar em gaiolas embaixo de morcegos que também viveram toda a sua vida confinada. O confinamento de animais é ele mesmo cósmico, pan-político e tem a ver com a história habitada do trato do que não é humano na estreita faixa. O mercado da carne é ele mesmo uma confluência de animais à disposição, um monumento ao império humano sobre os bichos, uma marca do capital na vida dos animais que ficam confinados com sua microbiota (e sua micro-quase-biota). Os morcegos excretam sobre os pangolins. Os vírus dos morcegos infectam os pangolins, o capital infecta a grade que confina os milhares de bichos, as gaiolas, as pilhas de gaiolas, o mercado, a cidade – e solta o coronavírus.

Segundo momento: já espalhados através da pan-política pelo mundo, as duas pandemias se encontram na estreita faixa de terra. A pandemia processual – o vírus que reinventa sistemas imunológicos e testa a capacidade de respiração humana – encontra a pandemia procedural – o vírus que reinventa o trato com todos o cosmos. A primeira pandemia se torna pan-política porque encontra na estreita faixa a digito-comodificação que indica “um tecnovírus com escalonamento ciberpositivo da singularidade” que gera um traumatismo que guia "todo o complexo de desejos biológicos em direção à usurpação de replicadores pós-carbono”.10 A estreita faixa é como uma arena, ou um útero, ou um parlamento viral. É aqui que as pan-políticas ditadas por cada agente viral – seus efeitos – se arranjam. De um lado, um vírus esvaziou cidades, diminuiu emissões de gases e queima de combustível fóssil, estimulou reforços no sistema de segurança humana, proporcionou uma tentação de decrescimento, colocou em cheque sistemas movidos pelo capital de saúde e assistência social e ofereceu argumentos para que os animais não seja confinados e outras formas de organismos do planeta sejam deixados em paz. De outro lado, o outro vírus clama para que as cidades não parem, insiste que a produção e distribuição de mercadorias siga em seu máximo e acelerando, não permite que o dispêndio com cuidados interrompa a preocupação com a acumulação, estimula a corrida por novos produtos farmacêuticos que combatam o outro vírus e que possam fazê-lo circular com maior intensidade, colocou em questão com maior intensidade a ideia de que a segurança humana seja mais importante do que sua própria segurança e estimulou a ansiedade já endêmica na estreita faixa que decorre da diminuição da velocidade. Cada vírus puxa de um lado. Na estreita faixa, ficam as controvérsias; aqui fica a produção registrada – não o simples excesso que escoamos, mas aquilo que podemos acumular – e aqui ficam as satisfações humanas de visitar a avó, de enriquecer, de ir a uma festa com muita gente, de garantias para o futuro, de ter refeições abundantes, de não precisar prestar contas de decisões a outros humanos. Aqui também é que no meio das pulsões e compulsões pode haver algum artifício e no meio do individualismo metodológico pode haver ímpetos. A guerra viral é o quotidiano da pan-política. É também a fricção que engendra as facções humanas, ainda que a política humana pareça se fazer de uma atenção aos interesses humanos – seu bem-estar, sua integridade, a satisfação de seus interesses. (Vale notar também que entre a fricção entre os vírus, há também alianças: por exemplo, os humanos confinados para diminuir a velocidade de propagação do SARS-CoV2 ficam isolados e ainda mais longe do gregarismo orgânico que o capital quer desinflar.)

Desde um ponto de vista da crescente artificialização da humanidade – que se combina por co-respondência à humanização seletiva mas descuidada das máquinas – o efeito do coronavírus parece uma invasão do passado. Pulmões virulentos: coisa tão orgânica. O vírus, orgânico mesmo que tão pouco vivo sem nada para lhe seguir, reconfigura as presilhas sociais e reforça o sistema de segurança humana. Mas o susto com seus efeitos tão biológicos parece primitivo como um tacape, 
um fogo na pedra ou a medicina medieval. Parece que já temos uma tela de celular que mostre onde está cada SARS-CoV2 com luzes fosforescentes e uma roupa que toca sirene encontra com ele. (Tudo às claras, exposto, transparente.) O embate das epidemias é um assunto de velocidades; o capital e sua artificialização do mundo – que tenta transformar os esconderijos de physis em data points – tenta ir mais rápido que a epidemia orgânica; ou protegendo os humanos para que eles sigam à disposição como o departamento onde o vírus-mônada se expressa, ou convencendo os humanos que há algo mais importante do que algumas de suas vidas: sua descendência maquínica – o capital que replica, os dispositivos económicos que sustentam a todos, a continuidade do fluxo que excedente que distancia os humanos das necessidades animais. Ou seja, o vírus do capital procura se imiscuir na agenda humana para que ele nela também caiba; sua pan-política precisa ter porta-vozes no parlamento da estreita faixa de terra. E ele oferece a produção, associada ao seu registro flexível, para nos arremessar para longe do gregarismo independente dela, um gregarismo que é feito de relações sociais anteriores à produção e que guarda sinais da origem orgânica dos hábitos humanos. Por outro lado, é como se o coronavírus fosse um agente – à serviço talvez da agenda pan-política de Gaia – para nos arremessar em direção ao orgânico, ao terrano de nossos corpos infectáveis por vírus de animal (ainda que confinado). Arremessar; a estreita faixa de terra é também um canto de destino de Hölderlin em que

[…] a nós não é dado
repouso em parte alguma.
Exaurem-se, sucumbem
os homens sofredores
cegamente atirados
ao longo dos anos.
De uma a outra hora,
de penhasco em penhasco,
até, lá em baixo, o incerto.11

De toda maneira, arremessados porque já estamos em melhor companhia com os aplicativos, com os artifícios, com os sistemas de controle e, de repente, nossos corpos através do vírus se erguem e enfrentam o capital e suas máquinas, nos arremessam da Ge-Stell12 que é nossa casa artificial sem lonjura e nem proximidade para os processos orgânicos da carne, para a artimanhas mais comezinhas da matéria. Um coronavírus que não está posto à disposição, que não tem um botão de desligar, nem está em um Bestand, em um reservatório. Imaginamos, por apego à estreita faixa, que também o coronavirus é uma arma, não da guerra pan-política, mas da guerra da Realpolitik em que se enfrentam as maneiras do capital agenciar o estado – uma arma biológica chinesa, nos dizemos, ou uma arma biológica americana. Em todos os casos, sabemos que a arma biológica é apenas parcialmente um dispositivo controlado e sob controle – há um cósmico que não é apenas macropolítico. Os vírus não são mais que comandos, e porque estamos nós à sua disposição – Wille zu Macht – é que ficamos em uma estreita faixa de terra atirada de penhasco em penhasco em redemoinho ao incerto. Entre o coronavírus e o capital – entre salvar a economia que é o que é mais partilhado por todos e salvar algumas vidas aleatórias escolhemos o orgânico ou o maquínico. O vírus, ele é o estrangeiro; o estrangeiro em uma terra que nunca encontramos pura já que nós a contaminamos.

Terceiro momento: prefiguradas no pensamento humano, as duas pandemias se (en)contram. A artificialização – o mundo do espírito, do comando, do controle – é um mundo em que os vírus passam por nós, são engendrados na estreita faixa, ainda que não estão sob o nosso controle – mas a faixa de terra é a procura da faixa de terra (prometida, sem males). A batalha, assim, é pan-cósmica e é também geracional: nossos descendentes que também fabricam comandos, que também eles forjam deontons de um lado, e nossos ancestrais cheios de suas incompreensíveis partículas de comando orgânicas, demasiado orgânicas. De um lado, o credo dos nossos descendentes: creio na prótese toda poderosa. De outro lado os nossos ancestrais já degolados e já ressuscitados nas nossas carnes cruas: come semente e caga no mato. Trata-se de dois destinos para a era da perseguição – sentido ancestral e o sentido da descendência, do povo que vem. A era da perseguição é a era em que desde a nossa faixa estreita procuramos domar tudo para construir uma torre de controle – que também não é uma faixa estreita de terra humana já que também os humanos precisam ser entendidos e seus poderes extraídos para que estejam sob o comando da torre. A era da perseguição e a torre de controle são o feijão com arroz do artificial. Os dois destinos, ou acelerar o artificial ou fugir dele. Dois partidos políticos, ambos pan-políticos, ambos em um redemoinho rumo ao incerto. Será possível acelerar o artificial ou fugir dele?

1. O primeiro partido é o partido de Gaia – em seus mil nomes.13 Trata-se do partido da volta ao orgânico no sentido de acentuar uma intensificação de nossas confederações com o que vem da Terra – um retorno ao natural, de alguma maneira. Este retorno está muitas vezes baseado em uma crítica à artificialização e seus efeitos; frequentemente na forma de uma crítica à modernidade. De uma maneira geral, este partido clama por uma outra relação com o não-humano orgânico, que ela seja uma relação informada por uma mentalidade que experimentou a devastação, por exemplo do antropoceno, e aprendeu com ela que o capitaloceno, ou a era geológica dos dispositivos, precisa ser superado ou abandonado. Ao invés de escreverem tratados sobre os outros orgânicos, fazem tratos. Ao invés de um cosmos de objetos a mercê de um sujeito cibernético que captura a inteligibilidade das coisas, enlaçar corpos em sociedades que vão para além da sociologia humana – uma diáspora da agência, um direito das coisas, uma dispersão das animações. É como se o orgânico ainda fosse a solução dos problemas, mesmo que tenhamos fugido dele. Um phármakon: o que é veneno pode se transformar em remédio se tomado com as boas precauções. O projeto pan-político é de reintegração com o orgânico; é mais para junto dos animais que nos protegemos dos espíritos, dos deuses artificiais, dos mecanismos. Curvar-se a terra para que ela nos proteja dos espíritos ou artifícios que nos assolam, para que ela nos arranque da sedução da reprodução cibernética dos montantes de capital – tenha ou não o nome de ganância – e das inteligências artificiais que se nos prometem conforto colocando mais coisas à nossa disposição - e partilham conosco poemas e teoremas. O caráter pan-político do partido fica claro se pensamos em suas implicações acerca da empresa do conhecimento humano – é esta empresa que precisa ser repensada segundo a agenda do partido, seja na forma de uma transformação na ecologia das práticas, ou de uma mudança da relação política com seus objetos, ou de uma alteração na engenharia da percepção singular informando um conhecimento universal. Um motto possível, ainda que não unanime no partido, é terranos contra os humanos, como a plataforma de Bruno Latour que sugere que façamos uma federação da estreita faixa de terra com as terras terráqueas.14 Latour propõe uma explícita declaração de guerra com os que querem nos retirar da Terra – ou abandoná-la – para que uma negociação consequente possa ser possível. Os dois lados da guerra: os humanos desterrados, desterritorializados de uma lado e os terranos, territorializados. E ele prega por um lado do conflito. Fincar pé na terra, procurar na Terra a estreita faixa. Há muitas tendências neste partido das quais vale mencionar três que têm entre si um conflito (macro-)político apesar da convergência pan-política – é certo que o conflito (macro-)político é parte do panorama pan-político.

a) A primeira tendência é a tendência animista ainda que de largo espectro e admitindo algumas sub-tendências também conflitantes entre si. Os animismos conectam existentes de qualquer forma por meio de negociações, diplomacias, alianças, associações e cumplicidades – e não por meio da extração da inteligibilidade, da vontade de verdade, da produção de objetos de conhecimento, do controle e do comando. A tendência aqui é formada por um guarda-chuva de ideias que atravessam tanto a ideia de antropologia da natureza – ou antropologia da mundação – que Phillipe Descola desenvolve e que mapeia quatro disposições ontológicas existentes no mundo, entre elas o naturalismo dos modernos e o animismo tipicamente do Baixo Amazonas mas também da Sibéria e outras partes do mundo quanto a ideia de pensamento tentacular de Donna Haraway. Uma ideia central é estabelecer um contato com o que é orgânico e não-humano não através da ideia de recurso natural mas através de algum tipo de companhia, de vínculo social, de cumplicidade, de economia partilhada. Uma vertente desta tendência é o perspectivismo que acentua corpos diferentes com uma estrutura deíctica semelhante, estrutura que é a base para uma aliança entre humanos e outras formas de animação; uma aliança que permite que vínculos sejam sociais e morais e não apenas de administração e gestão.15 Carlos Segovia insistiria que a tendência animista é aquela que olha para o corpo, e não para o organismo, uma preocupação que foi destituída pela imagem edênica em que plantas e animais aparecem como sendo servidos às personagens humanas.16 Os animistas tendem a se orientar por uma comunidade de terranos, uma associação com as outras formas de vida da Terra em que os humanos não tenham uma preponderância nos moldes que, pelo menos desde o início dos tempos modernos, foi tomada como certa.

b) A segunda tendência é a geontologia, recomendada por Elizabeth Povinelli. Ela entende que os animismos estão inseridos no imaginário carbónico do niilismo: um imaginário baseado na clivagem entre aqueles que capturam a inteligibilidade dos recursos e aqueles que possuem as inteligibilidades que se dão à extração.17 Povinelli insinua que abandonar a distinção niilista entre inteligibilidades capturáveis e inteligências capturadoras requer o exorcismo da distinção mesma entre vivo e morto, ou, mais ainda, entre vivo e não-vivo – entre o biológico e o geológico. Ela propõe uma outra atenção ao mundo, mais alheia às questões de meia-pataca acerca da vida e da morte.18 Aqui, ela se alinha ao que fazem os vírus – a indiferença pela vida e pela morte. O vírus, uma das figuras que ela evoca para pensar sua questão, é transversal à distinção. Povinelli parte da resistência aborígene no norte da Austrália para entender a existência como indiferente às linhas de vida e morte, de animação e inatividade. Assim, a comunidade da Terra é uma comunidade geológica. Assim, ela entende a atenção como uma orientação e não como um preâmbulo do entendimento – no trato da atenção o corpo humano, o lodo e a ostra se interpretam dinamicamente e produzem efeitos específicos. A beleza, o medo e a repulsa são maneiras de atrair atenção para um existente qualquer – e a atenção está associada a uma manifestação que é preciso aprender a detectar. A geontologia é uma tentativa de orientar a política para além da vida e em direção às dinâmicas geológicas que são comuns às rochas, às marés e aos seres vivos que nelas habitam.

c) A terceira tendência é a da virada, do retorno, da Kehre tal como foi defendida nos textos de Heidegger, em particular em seu distanciamento do niilismo tal como ele entendia que Nietzsche diagnosticou. Nietzsche, sobretudo a partir d'A Gaia Ciência, relatou em fragmentos o processo que ele tomava como inexorável de extração da inteligibilidade das coisas – aquilo que aparece na seção 125 d'A Gaia Ciência como o assassinato de Deus – e que expunha o funcionamento de todo sensível. Este processo, ainda que interminável, é guiado politicamente pela vontade de verdade a qualquer custo e produz uma relação com o mundo que é baseada na disputa de espíritos livres pelo poder sobre cada coisa. Heidegger entende que o diagnóstico de Nietzsche é sobre o empreendimento metafísico do ocidente, se bem que Nietzsche ele mesmo ainda procura capturar a inteligibilidade desse processo e ainda se insere no esforço metafísico. Heidegger, ao contrário de Nietzsche, não aposta na exacerbação ou aceleração do niilismo, mas em encontrar um fio que permita de alguma forma de revertê-lo. Nas conferências de Bremen, ele encontra já no interior da physis a força da exposição, a thesis. Esta contraposição é aquela entre o mundo onde coisas se aproximam cuidadosamente uma da outra e onde o perto e o longe são cruciais já que toda coisa está em um horizonte e Ge-Stell – o dispositivo, a posicionalidade, a armação – que torna disponíveis todas as coisas. O mundo e Ge-Stell são o mesmo, mas o mesmo não nunca equivalente, diz Heidegger. O mesmo está nas relações de diferenciação.19 O mundo vai se transformando em uma Ge-Stell que, ao invés de abrigar e guardar as coisas, passa a tê-las à sua disposição. A virada é a saída da metafísica também por meio de um outro tipo de atenção, não a atenção da extração de inteligibilidade, mas aquela que é seguida pelo esquecimento e que aparece como um relance, um lampejo. O projeto da tecnologia – cuja essência é Ge-Stell – precisa ser revertido e substituído por uma serenidade diante do modo mesmo em que as coisas tem lugar, um pensamento que não desmantela a physis mas antes a guarda, a sintoniza e deixa que ela se manifeste e se oculte. O jovem Levinas, em 1934, sem mencionar Heidegger, descreve o perigo do que ele chama de 'hitlerismo em filosofia' – a filosofia que atrela o pensamento e a responsabilidade ao solo e ao sangue.20 Há um tanto disso na Kehre de Heidegger: o atrelamento à terra, a um elo com physis que parece externo ao pensamento e que deve de alguma forma moldá-lo a partir de uma incumbência, de uma trato do cuidado.

Há também um tanto disso na agenda do partido de Gaia em geral – pode parecer que se trata de limitar o pensamento humano a uma confederação com o orgânico, com physis ou com as formações geológicas que pode ser reconfigurado mas não pode ser colocado em questão. O partido de Gaia pode parecer o avesso da desterritorialização.

2. O segundo partido é o partido da produção, do artifício, da inteligência, do espírito. Nos proteger do orgânico e do terrano é nos aproximar do artificial; o que significa sair transformar os elos sociais em outras conexões, mediadas pela produção, pelos dispositivos económicos ou por uma racionalidade que emane do espírito – da mera reunião de quem pode seguir regras – e seja indiferente às pulsões orgânicas. É como se o espiritual artificial fosse a solução dos problemas, mesmo que tenha trazido tanta destruição. Um phármakon: o que é veneno pode se transformar em remédio se tomado em doses maiores. Neste partido, há uma doutrina de origem moderna – uma simpatia, em termos gerais, com a organização do mundo promovida pela desenvolvimento técnico e científico dos últimos séculos. Em contraste com o partido de Gaia, este é um partido iluminista que acredita que há alguns eixos centrais do que teve lugar nos últimos séculos que são adequados ainda que outros mereçam crítica – com base nestes mesmos eixos centrais que são adequados e que devem ser exacerbados. É um partido que aposta na exacerbação. Mais do que isso, é um partido que, com Nietzsche e contra Heidegger, entende que o niilismo é remédio e não veneno – pelo menos se administrado em uma dose maior. A produção conflui com a extração da inteligibilidade e com a transformação da relação humana com o resto do planeta em uma relação mediada por dispositivos. Há muitas tendências neste partido das quais vale mencionar três que têm entre si um conflito (macro-)político apesar da convergência pan-política – é certo que o conflito (macro-)político é parte do panorama pan-político.

a) A primeira tendência é a tendência inumanista de filósofos como Reza Negarestani.21 Ao invés de substituir a extração da inteligibilidade, elas pretendem criar uma comunidade de extratores que em certa medida criam, sustentam, instituem, mantém e preservam a inteligência. Nigarestani entende que a inteligência é Geist que é também espírito, que é também artifício, que é também máquina, que é também uma força que não pode ser contida. A ideia central é que o espírito é intrinsecamente dialógico, interpessoal e social; a partir do modelo de racionalidade como articulação social de compromissos, permissões e endossos de Robert Brandom, o inumanismo pretende entender regras como a base de uma sociabilidade que se estende do humano a possíveis inteligências artificiais. As regras separam os humanos do mundo orgânico – animais não seguem regras, vírus não instituem regras e assim por diante. Essa separação aproxima os humanos de inteligências maquínicas que podem, se adequadamente inseridas na conversação humana, desenvolver a capacidade de manejar regras – e com isso de articular razões. Geist – a imanência da história das normas – trata o resto do mundo através da captura da inteligibilidade de cada coisa, o ofício do conhecimento desde o surgimento do pensamento metafísico. O inumanismo não se importa em incorporar a Ge-Stell à Geist, mais do que isso, ele pretende que a artificialização é um caminho de emancipação da humanidade dos grilhões das relações sociais que não foram mediados por Geist. Esta tendência aposta no exercício iluminista da razão que é comum não apenas aos humanos, mas às agências artificiais capazes de atuar a partir de uma capacidade de seguir regras. O fortalecimento de Geist contra qualquer insistência em hábitos, tradições, costumes supostamente irrevogáveis ou em ímpetos, compulsões ou inclinações irresistíveis marca a pan-política que é defendida aqui. É da força que faz Geist se erguer que surge a possibilidade da emancipação – para o que é humano ou sua descendência, para o que comunga com o espírito, o humano e o artificial. A inteligência é ela mesma a força cósmica que escapa da physis e que se torna independente dela. E a comunidade das inteligências – assim como a própria inteligência – é inacabada, ela admite outros membros, outras regras, outras interpretações e outras jurisprudências.

b) A segunda tendência é a tendência marxista que de alguma maneira é rearticulada por um conjunto de filósofos dos últimos trinta anos do século XX, em particular Jean-François Lyotard, Gilles Deleuze e Félix Guattari. A ideia central é de que o capital organizou a produção de uma forma que colocou indivíduos humanos antes desconexos como unidades de fabricação em uma comunidade forjada pela própria produção – são estes elos sociais que não precedem à produção que podem transformar os humanos para além de seu sistema de segurança baseado em tiranias, opressões e hierarquias moldadas por castas, clãs, religiões, famílias. A força que redime a humanidade destes grilhões desterritorializa e ao mesmo tempo promove um comunismo intenso mediado por máquinas que reindividuam o socius humanos – talvez em uma sociedade de ciborgues. A emancipação que a força que forja o capital produz eventualmente se volta contra os capitalistas e suas propriedades privadas em favor de uma comunalidade que não pode fazer senão se expandir. Marx diagnosticou o mecanismo da acumulação de capital desde terras comunais em que camponeses trabalhavam isolados até as grandes propriedades em que a terra importa menos que a abstração do capital e do trabalho – este diagnóstico, como o diagnóstico do niilismo em Nietzsche, não é movido pela nostalgia ou por um ímpeto de fazerem regressar os vínculos sociais que são indiferentes às forças produtivas. Trata-se aqui também de exacerbar, acelerar o processo de reconstrução de relações sociais a partir da desterritorialização. O capitalismo é uma fase do processo de descodificação dos fluxos que o registro flexível e móvel da produção permite – e uma fase em que a uma reterritorialização é sempre necessária. Deleuze e Guattari entendem que o capitalismo requer a manutenção e a intensificação dos vínculos familiares, das famílias nucleares, que se estabelecem antes da produção. Mais do que isso, o capitalismo precisa reterritorializar aquilo que ele descodifica – esta é a sua axiomática. Essa tendência procura então encontrar formas de acelerar a desterritorialização que o capital mesmo promove – trata-se de estimular a fricção entre o capital e aqueles que procuram se apropriar dos resultados de sua acumulação e que precisam de reterritorializações para que possam sobreviver enquanto patrões. A revolução do capital é nefasta apenas se incompleta. É preciso levar o processo de reconstrução dos vínculos sociais pela produção a termo – e para isso toda a artificialidade dos procedimentos de acumulação e registro que o capital promove precisam ser exacerbados. É a comunidade de ciborgues da produção que aspira essa tendência.

c) Esta é a tendência da deriva ciberpositiva do capital ou, se quisermos, do iluminismo sombrio, recomendado por Nick Land e alguns de seus entusiastas. A ideia da tendência é precisamente que o capital ele mesmo produz uma saída de todo terrano e faz com que a artificialidade seja promovida em um grau cada vez mais intenso. A humanidade já está sob o jugo da inteligência artificial do futuro que é o capital22 e não há como resistir a uma espiral de artificialização que tornará a humanidade cada vez menos orgânica, cada vez menos vulnerável ao que pode e não pode um corpo e suas infecções. Land entende que o capital só reterritorializa quando está ainda em sua fase inicial – o assalto ao social que é o capitalismo é muito mais marcado pelo que ele é capaz de derreter do que pelo que ele desapropria. O derretimento – a desterritorialização – é um projeto político que, também aqui, cabe exacerbar ainda que o futuro que ele gesta não seja possível de ser figurado. Há um processo de hibridação entre o capital e o desejo que produz ele mesmo gradativamente uma Terra artificial – Land se refere à Cyberia23 - onde os humanos são reindividuados e ganham uma anonimidade em meio às relações sociais desterritorializadas. A diferença entre esta tendência e a tendência marxista é clara; nos termos de Mark Fisher, a posição de Land promove um colapso entre o capitalismo e a esquizofrenia que move o capital – e com isso fica obscurecido o elo central entre capitalismo desterritorializador e as reterritorializações compensatórias.24 Assim como o diagnóstico de Marx – acerca da violenta história da acumulação primitiva de capital – pode ser usado para balizar uma pan-política do outro partido que advogue que o capitalismo é inextrincavelmente reacionário e caberia revertê-lo, a análise da flexibilidade do capital de Marx pode balizar as ideias da tendência da deriva ciberpositiva do capital se ela for desligada das asserções de Marx acerca da insuficiência do desmantelamento social capitalista. Assim, esta tendência se aproxima de uma posição que procura dar plenos poderes ao capital – como no anarco-capitalismo ou no neo-cameralismo25 - e ecolher o artificial em suas tramas como uma remédio para a tirania do sistema de segurança humano, orgânico, demasiado orgânico.

Vale notar que os dois partidos – ou se quisermos os dois pharmaka que tentam transformar veneno em remédio – tem tendências políticas conflitantes. De um ponto de vista macro-político, as tendências c) de ambos os partidos tendem a se agrupar à direita e as tendências a) e b) de ambos os partidos à esquerda. Poderíamos dizer que a pan-política é transversal à macro-política – se bem que um quadro esquemático faria perdermos a atenção para as nuanças mais relevantes.

De toda maneira, os vírus nos arremessaram entre um Strom e um Gestein pan-políticos. Talvez seja mesmo porque a estreita faixa é um limiar, estamos no ponto em que o orgânico e o artificial se cruzam – os humanos saem do orgânico e lançam o artificial, são uma encruzilhada pan-política. Cada direção – cada comando, cada infecção – é também uma substituição. Ou seja, não respondemos apenas por nós mesmos, pelo que nos afeta, nos infecta e tem efeitos sobre nós. O que fazer? Que direção tomar? Em todo caso, a correnteza, como a estreita faixa de terra, está condenada a não ser um assunto humano, demasiado humano.

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