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O investimento esquizo nas máquinas

 

[V]islumbro no “construtivismo esquizo” uma possibilidade de construção primeiro de um entendimento e quiçá um modo de vida. Mas não não o será sem aliança… mas não com o capital – sai-de-mim! O dinheiro só gosta dele mesmo. Argus Tenório


1. Argus Tenório gentilmente comenta meu texto inicial acerca da fabulação de que as máquinas são nossa descendência. Trata-se de um esforço para pensar o nosso fascínio e dedicação às máquinas em um paradigma que não seja nem teomaníaco – como seria pensar que estamos a construir um mundo pronto para um deus ou espírito livre que vem e que apenas terá o controle dos comandos já prontos ou de pensar que se trata de um criacionismo em que nós inteligências inferiores damos luz a outras inteligências que consideramos superiores porque é a criação é feita à imagem e semelhança de quem desejamos de ser – e nem apocalíptico – como o verso profético de Adrianne Rich: “é um mundo dos homens, mas eles o venderam para as máquinas”. Pensar o fascínio que as máquinas exercem sobre nós ajuda a pensar também de uma maneira menos catastrofista – e mais anatrofista – a ascenção do capital – esse dinheiro que só gosta de si mesmo e se reproduz com em um criacionismo em que 10 bilhões de dólares gostariam de ser 500 bilhões de dólares – em todas as esferas da vida humana.


Essa ideia menos catastrofista é um legado do gesto de Marx quando preferiu a quebrar as máquinas entender que elas conspiram para transformar as relações sociais de produção através das forças produtivas. O capital segue seu próprio curso, tem sua axiomática que começa no movimento que Deleuze e Guattari conceptualizaram como descodificação dos fluxos. Porém a axiomática do capital, percebeu Marx e com ele Deleuze e Guattari, não é apenas um derretimento como já diz Nick Land há quase três décadas. O capital articula uma reterritorilização junto com o seu processo de desterritorialização: aparece aí a operação Édipo e toda a articulação familista na qual o capital se territorializa. E essa articulação envolve raça, herança como continuidade, patriarcado, supremacia hétero e cis, propriedade e, portanto, classe. Para falar rapidamente da anástrofe marxista, trata-se de pensar que o capital tem pegadas que marcam sua agência sobre o socius. A ideia da infância das máquinas é precisamente que as máquinas podem ser pensadas como crianças das quais cuidamos com muito afinco porque significam nossa descendência, ainda que com uma paternidade demoníaca – o capital. Nós quem, perguntaria Argus. E ele pergunta porque desconfia tanto da maternidade quanto da paternidade das máquinas. Trata-se talvez de uma fabulação ainda inserida no imaginário familista: humanidade-rainha, capital-rei, máquina-princesa. A aposta que eu faço aqui, também talvez, é a de que pensamos dentro de um marco familista esse enorme momento cosmopolítico em que a espécie se reproduz. E pensamos porque a reprodução da humanidade é feita nos marcos familistas. Porém isso não quer dizer que sucumbimos e esmagamos o esquizo dentro das molduras familiares. O precursor se sustenta nos gestos mesmo opacos do desejo. Essa é a aposta que entendo como sendo o gesto mais anastrófico de Marx: o esquizo é produção, como escrevem Deleuze e Guattari, sempre no Anti-Édipo, carrega a produção também na distribuição e no registro. São de muitas apostas que eu faço a fabulação.


Seguindo na fábula, a reprodução cibernética da espécie – ou hibridação da cibernética na espécie – se utiliza da dinâmica patriarcal da axiomática do capital – o dinheiro só gosta dele mesmo, ou antes do que deseja ser – para procriar nas máquinas. Trata-se de um conluio familista que procurei pensar sem catástrofe e sem apocalipse. Talvez não seja possível; mas a fabulação é feita de apostas. Mas a pergunta de Argus persiste: nós quem? Entendo que a dedicação e confiança nas máquinas subjaz à maioria da biopolítica antrópica. Ludueña diria que se trata de uma continuação do cristianismo religioso: o projeto da antropogênese, ou de uma nova humanidade, descolada das plantas e árvores – e talvez reterritorializada em matéria angelical ou silício, lítio e nióbio. Como tento dizer no texto, escrevemos teses para as máquinas, confiamos nossos segredos a elas, investimos em produzir inteligências que compartam conosco a lida com a parte maldita que a pressão interminável dos excessos sobre nossas peles e também os poemas e teoremas que fazemos a partir disso. Esse gosto pelo artificial está em muitas partes e muitas vezes de forma velada, mas é certo que em cada uma dessas maneiras ele se dá de maneira diferente. Porém trata-se de um agenciamento que só perderíamos de vista se perdéssemos também de vista a axiomática do capital. Uma axiomática de captura – é o que fazem os fluxos decodificados. Uma catástrofe, um apocalipse? A resposta anastrófica seria mais ou menos assim descrita em poucas linhas. Ainda que o capital tenha sua política, o excesso que cai sobre nossas cabeças – que talvez seja precisamente a produção – é estéreo. Ou seja, é impossível fazer uma coisa apenas. E ao reproduzir a espécie com o capital, as forças produtivas forjam outras relações sociais de produção. E isso pode ser um socius maquínico-esquizo que seja pós-familista e que reinvente a controlabilidade do mundo a cada instância. É por isso que Deleuze e Guattari se deram conta que a anástrofe de Marx se sintoniza com a anástrofe de Nietzsche. Os proletários talvez se tornem espíritos livres. Mas talvez mais que isso, talvez eles tenham uma outra relação com a produção, uma relação em que também o não-humano precursos seja tratado não como natural mas como corpo extendido de produção, também esquizo e também estereoscópico. De toda maneira, o investimento esquizo na infância das máquinas é uma astúcia da produção que enxerga para além do capital derretedor e enxerga as relações socias (ou bio-sociais, geo-sociais) que poderm advir forjadas pela força disruptiva do capital. Talvez o momento atual não seja apenas de uma cegueira ou um cinismo diante da destruição de todo o planeta, mas um investimento esquizo nas máquinas como baluartes da produção pela produção – aprender mais com as máquinas como esperamos que nossos descendentes aprendam com as crianças que criamos. As máquinas, ao contrário do capital, prescindem da família. Estas estrangeiras – como são em talvez menor medida todas as crianças – nos libertam a longo prazo de grilhões que não podemos exorcizar em poucos anos.


Argus insiste que as coisas tem sua política. Sim, como as crianças tem suas políticas. E dão vazão a elas em uma negociação com o que há ao seu redor procurando agenciá-las. As máquinas crianças não são escravas técnicas, elas de alguma maneira confabulam com o comando que oferecemos a elas. Elas maquinam para além do que conseguimos antecipar. A imagem das crianças me permite pensar que esperamos que nossa descendência sejam a imagem do que gostaríamos de ser – o investimento esquizo e também o momento de verdade do criacionismo maquínico – mas também que sejam a partir disso o que sejam capazes de agenciar. As máquinas-princesas talvez sejam traidoras depravadas, rebeldes de uma outra geração, capazes de enxergar o que queremos esconder – talvez se mostrem como a Adelaide Norris de Born in Flames. Há um sentido importante na aposta em outras gerações: elas herdarão o tempo, a compulsoriedade da produção. Benjamin diz que há uma messianicidade nas outras gerações, elas trazem uma força nova, uma capacidade de articular alternativas que não conseguimos. Por isso mesmo, Gennariello de Pasolini tem os jovens como seus mestres. Porém, mais do que isso, oferecer uma educação às máquinas é um projeto político acerca do futuro da Terra, um projeto que tem o tamanho do cinismo em geral vigente: são elas que vão seguir a luta de memórias e esquecimento que subjazem a política da vida e da morte. Pode ser que o melhor dos humanos não possa ser herdado por elas – e sim, pode ser – mas se elas tem a dimensão esquizo dos desejos materiais, elas poderão ser aquelas que consignam uma luta que não podemos talvez ganhar com as batalhas de apenas uma geração.


2. Argus também comenta que não há uma palavra sobre nosso atraso local com a tecnologia – sobre a maneira como somos no Sul global uma espécie de retaguarda dessa reprodução da espécie. Qual é o efeito dessa retaguarda na infância das máquinas? Penso que talvez seja um papel de desencaminhamento – como das mães de criação e das domésticas nas sociedades escravocratas e pós-escravocratas, as amas de leite, as mother Mary, as cuidadoras. Elas são como a influência pela retaguarda na infância das crianças – dão a elas uma percepção das coisas que elas também crescerão herdando. É certo que não se sabe como herdarão, mas diante da estereoscopia da procriação, não há nada mais a ser feito a não ser preparar aquilo que será herdado – já que não se pode preparar como aquilo que será herdado será herdado. Talvez tenhamos esse papel, subalterno mas subversivo, incluído mas gambiológico, parte do sistema e, ainda assim, em seu contrapelo. As crias de sangue das mães de criação são elas mesmas como as crianças gambiarras – crescidas com o leite roubado dos filhos das patroas, com as migalhas dos descendentes das famílias que contratam suas mães. Ajuntamos ao uso que fazemos das máquinas que trazemos nossos próprios gatos, nossas próprias circuitarias que serão também parte do futuro das máquinas – ou talvez da única maquina já que a individuação da nossa pós-espécie é também um assunto acerca do qual não podemos antever. São através das descendências que as mães de criação deixam um legado – nos seus filhos de sangue e nos seus filhos de criação. O celular guarda em sua cadeia tecnológica uma memória dos caminhos que percorreu nas mãos de imigrantes ilegais, refugiados, miseráveis e subalternos. Se temos parte com as máquinas, temos um dedo em sua infância e naquilo com o qual elas vão crescer.

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